| Paróquia da Maia
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Confraria de Nossa Senhora do Bom DespachoNum dos parágrafos do Prólogo dos Estatutos (folha 6), justifica-se a superioridade da invocação da Senhora do Bom Despacho sobre todas as outras. Assim, o autor – que, ao que tudo indica, terá sido o P. Luís de Oliveira Alvim – fundamenta esta devoção na eficácia da intercessão de Maria enquanto ministra do homem: Muitas mas sam as figuras ou retratos que os escriptores com o fino pinsel de sua penna retrataram a Maria Santíssima, porém entre todos os retratos miraculozos o mais singular e prodigioso foi o da vara, na qual Isayas a retratou (...) por nessa se figurar Maria com o soberano títolo de Bom Despacho, pois se a vara he insígnia de ministro, na qual apenas pegando com ella administra os despachos dos homens, assim Maria Santíssima, apenas pegou da vara (...), logo se constituio ministra do homem e floreceo com bons despachos para as creaturas (...)É interessante verificar que a expressão bom despacho não aponta, nesta invocação, para as situações de parto ou morte, como acontece noutras com o mesmo nome, mas para uma atitude semelhante a um acto administrativo, em que Maria defere os pedidos que os crentes lhe fazem, despachando-os independentemente do tipo da situação de aflição que os motiva. No mesmo Prólogo (p.12) é louvada a misericórdia de Maria, que, sob a invocação de Senhora do Bom Despacho, atende as preces de todos os que a ela se dirigem: ... he Maria sol que sem attender a merecimento, ilumina com seos resplandores assim a justos como a peccadores. Deste modo, afirma-se que um dos principais objectivos da criação desta Irmandade é unir, sob a protecção de Nossa Senhora do Bom Despacho, huns e outros irmaons em o vínculo de amor e charidade. Mais adiante, no capítulo A dos referidos Estatutos (p.15), é lembrado aos moradores de Barreiros o grande bem que para as almas he o estares unidos e viverem todos como irmaons conformes com o amor de Deus, esta união será certamente conseguida com o patrocínio da Mae do mesmo Deos, Raynha dos Anjos e advogada dos pecadores, a Virgem Sanctíssima Senhora Nossa... O texto justifica a veneração de que nossa Senhora é alvo, sob a invocação do Bom Despacho, numa freguesia cujo orago é S. Miguel. Este esforço de explicação e conciliação das duas devoções deixa adivinhar um provável desagrado dos devotos do ancestral padroeiro de Barreiros – S. Miguel – que o viam já destronados face ao crescente culto da Senhora do Bom Despacho. Assim refere-se que os irmãos de uma confraria são semelhantes a vassalos na sua atitude de veneração; esta vassalagem só se justifica onde houver uma Rainha e um Príncipe que possam ser servidos pelos fiéis: ... só onde assiste o Princepe e a Raynha he que deve haver vassalos decretados para os sirvirem. Pincipe [das milicias dos anjos], he S. Miguel, Raynha he N. Snr.ª do Bom Despacho (...) que ambos estejam nesta Igreja (...) Se nam vejam: quando houve no Ceo aquella grande pelleja como Princepe (...) mas tambem hua Mulher coroada como Raynha (...) E quem era essa Mulher Senam Maria Santíssima Senhora do Bom Despacho? A festa de Nossa Senhora do Bom Despacho sempre se celebrou, na freguesia de Barreiros, no segundo domingo de Julho. Nos estatutos da irmandade refere-se que teve sempre por custume esta freguesia fazer a festa a N. Snrª do Bom Despacho em o segundo Domingo do mez de Julho (folha 23v.). Podemos, por isso, afirmar que esta celebração se realiza nesta data desde há, pelo menos, cerca de trezentos anos. Esta calendarização foi sendo mantida porque os fiéis já estavam a ela acostumados: ... e como he o dia de que o povo tem ja noticia, por isso ordenamos que nelle se faça... . No mesmo texto são dadas indicações precisas aos irmãos da Confraria quanto ao comportamento e indumentária a adoptar durante as cerimónias: ... em cujo dia esperamos assistam todos os irmãos o mais luzidos que puder ser, assim para nelle se confessarem e comungarem como para assistirem na procissam com as suas medalhas, e da mesma sorte as mulheres (...) e achando-se presente o Juiz, sendo nosso irmã, hirá com a sua medalha, vara e demais ornato necessário e se fará a festa com a pompa possível... . Através da leitura dos documentos do Arquivo Paroquial, apercebemo-nos da importância crescente que a Irmandade assumiu, não só pelo contributo que deu à vida espiritual da freguesia mas também pela hegemonia temporal que foi adquirindo e que estará certamente na origem de certos atritos que se adivinham nas entrelinhas dos referidos textos, como acontece, por exemplo, num texto, num texto de 1768, Na sequência da relação dos bens da Igreja de S. Miguel, feita pelo Padre João José Cardozo de Noronha, então pároco de Barreiros, o mesmo inventaria também os bens da confraria e irmandades existentes na paróquia (fl. 82 do Livro dos Capitullos da Igreja de S. Miguel de Barreiros), começando pelos Bens de que tenho notícia são da Confraria e Irmandade de Nossa Senhora do Bom Despacho dos quais seus confrades não quizerão dar conta, por serem da jurisdição secullar. Passa de seguida à relação dos objectos em causa, dentre os quais se destacam hua croa de pratta e hum resplendor, tinteiro e penna da promessas feitas à Senhora do Bom Despacho: tranças de cabelo, velas, mortalhas, quadros de navios (ex-votos), peças de ouro. Tal como a Igreja de S. Miguel, esta imagem foi custeada por Domingos Luís Barreiros, residente no Brasil, que foi autorizado a reservar para si e para a sua família uma sepultura ao fundo do corpo da Igreja, em frente ao mesmo altar. Também na capela-mor se observa a pedra que cobre o túmulo do Rev.º Vicente Gramaxo. O culto de Nossa Senhora do Bom Despacho parece assim ter raízes muito antigas em S- Miguel de Barreiros. Nos Estatutos da Irmandade da Coroa de Nossa Senhora do Bom Despacho, de 1730 – livro manuscrito abundantemente decorado, conservado no Arquivo Paroquial – é referida a profunda devoção dedicada a esta invocação de Nossa Senhora, quer da parte dos naturais da freguesia, quer de outros fiéis, nomeadamente marinheiros e pescadores, que ocorriam à Igreja Paroquial de Barreiros para agradecer as graças recebidas: (...) e por isso sempre foi venerada esta imagem soberana, mayormente pelos homens maritimos como dos moradores de Maçareloz, Sam Joam da Foz e Mathozinhos e mais circumvezinhos do mar de villas, e cidades que a esta Igreja continuamente concorrem, e vem tributarlhe, e renderlhe as graças pelos despachos concedidos nas suas súpplicas, e offerecerlhes suas dadivas (...) (fl.9). No mesmo documento referem-se os prodigiosos despachos e excelentes milagres que esta Soberana Imagem de Maria tem obrado depois que a colocou o R. do António Rodriguez de Carvalho Abbade que foi desta Igreja que Deus tenha em sua santa gloria, que haverá pouco mais de sincoenta anos que a colocou (...) (fl.9). A importância deste culto esteve certamente na origem da primitiva Confraria, criada em data desconhecida e, a avaliar pelo que é afirmado no documento de 1730, sem estatutos próprios: (...) cuja Senhora supposto tenha já seo modo de Confraria a quem servem dous moradores desta freguesia que p.ª isso se elegem em cada hum anno, cõtudo como the qui nam tenha statutos approvados p.ª por elles se guovernarem (...) (fl.16). O P.e Luís de Oliveira Alvim, pároco de S. Miguel de Barreiros entre 1729 e 1747, juntamente com um grupo de paroquianos, reformou em 1730 a referida Confraria, erigindo a Irmandade da Coroa de Nossa Senhora do Bom Despacho e redigindo os respectivos estatutos. No manuscrito dos referidos estatutos podemos ler um texto em verso, ao estilo da devoção popular, a que o autor – não identificado – chamou Romance, e que é dedicado a esta invocação de Nossa Senhora: Neste Paiz mui florido vale ameno de Barreyros onde sam flores abismos onde abismos sam portentos Se consagra à pura Rosa de Maria mais que imensos cultos jamais nunca vistos lá nos pretéritos séculos. Que Maria Venerada fosse sempre em outros tempos, com timbres do Bom Despacho já com diadema a temos. Pois da Coroa a Irmandade, erecta com tanto obséquio, se lhe dedica à Senhora nova coroa, novo veptro. Misterioso he o titulo de Bom Despacho por certo com este novo da Coroa não vai fora de mistério Se sabemos que a Raynha desses tronos pre excelsos he bem lhe dêmos a coroa Ca neste globo terreno. Donayre lhe tributa o sol, majestade o firmamento, Diana a seos pés rendida lhe offerta luzente império. Com títulos muito heróicos se exalta neste universo, com a coroa do Bom Despacho novamente aqui a temos. Da May de Deos os despachados sam infinitos e imensos os que veneram o Rosário os alcançam manifestos. Porem estes seos irmaons que a veneram com excesso apelando para a coroa terão melhor provimento. Pois quem busca esta Senhora com este título supremo em seo favor os despachos serão milhares de centos. Desta mui nobre Irmandade este statuto fizeram, Confraria de aplauzos, compromisso de obséquios. Para terem Maria despacho de gozo eterno, em Templo de S. Miguel esta Irmandade fizeram. mesma que quotidianamente tem a Senhora e o Menino Jesus dos brassos, bem como huma capa da Senhora de seda branca matizada com ouro e outra ditta de matizes de cores. Apesar da vitalidade inicial atestada em documentos anexos aos estatutos, a actividade da irmandade deve ter decaído ao longo dos anos, como deixa perceber a Nota Histórica que antecede os estatutos de 1944: O amos às coisas passadas e a lembrança de que foi outrora esta freguesia, fizeram nascer no espírito do zeloso Pároco, José Pinheiro Duarte, o desejo de levantar, da cinza em que jazia, a Confraria de Nossa Senhora do Bom Despacho, e elevá-la às alturas da sua antiga fama. Assim esta associação religiosa voltou, a partir de 1944, ao seu papel de organismo importante na vida da paróquia em que foi erigida, passando a designar-se Confraria do Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Bom Despacho e Almas. Maria Artur Paróquia da Maia - Diocese do Porto - Portugal P. Domingos Jorge Comentários e sugestões |